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Nota técnicaG4W-NT-2026-01·20 de outubro de 2026

Quantos sensores, e onde? Alocação de medição sincronizada para estimação de estados trifásica em alimentadores de distribuição

G4W

Resumo

Muitos alimentadores de distribuição só têm medição na subestação, e a estimação de estados ao longo da rede depende de previsões de carga com incerteza elevada. Esta nota mostra, em três alimentadores de teste trifásicos e desequilibrados (IEEE 13, 34 e 123 barras), quanto o erro de estimação cai quando pontos de medição sincronizada são acrescentados à rede, quanto a escolha desses pontos importa e que exatidão de medição e de sincronismo esse ganho exige. Com quatro pontos, escolhidos por um procedimento guloso e avaliados em cenários independentes, a média do maior erro de tensão por cenário cai 90 %, 94 % e 59 %, e o erro das correntes nos trechos cai 89 %, 82 % e 44 %. Se a subestação fornecer apenas as grandezas típicas de SCADA (módulo da corrente e potências), o caso sem pontos piora e a redução sobe para 91 %, 94 % e 65 %. A alocação otimizada leva o erro de tensão abaixo de 0,3 % com dois a quatro pontos, enquanto uma regra de espaçamento uniforme precisa de cinco ou não chega lá, e a média de alocações aleatórias não chega com oito pontos em dois alimentadores. Sincronismo com desvio-padrão de até 10 µs preserva ao menos 98 % do ganho. A carga individual de cada barra melhora muito menos quando há muitas cargas por ponto.

Palavras-chave: estimação de estados; observabilidade; alocação de sensores; sincrofasores; redes de distribuição; modelagem trifásica.

1. Introdução

Geração distribuída, cargas eletrificadas e fluxos bidirecionais tornam o perfil de tensão e o carregamento de um alimentador menos previsíveis do que em uma rede apenas com cargas passivas. Ainda assim, muitos alimentadores são instrumentados apenas na subestação. Entre ela e o fim da rede pode haver quilômetros de condutor sem nenhuma medição.

A estimação de estados combina medições esparsas com um modelo da rede para produzir uma visão completa: tensões em todos os nós e, a partir delas, correntes nos trechos, cargas e perdas [1], [2]. Em distribuição, a falta de medições obriga o estimador a usar pseudomedidas, isto é, previsões de consumo derivadas de faturamento ou de curvas típicas, com incertezas elevadas [3]. Some-se a isso o desequilíbrio entre fases, que exige modelagem trifásica.

Sensores sincronizados medem módulo e ângulo de tensão e de corrente em pontos distribuídos da rede, com uma referência de tempo comum, tipicamente obtida por GNSS [4], [5], [11]. Para uma distribuidora, a pergunta prática não é se esses sensores ajudam, mas quantos pontos instrumentar, onde, e com que exatidão de medição e de sincronismo, porque cada ponto tem custo de equipamento, instalação e comunicação. A alocação de medições é estudada há décadas na transmissão [6].

Esta nota é um estudo aberto e reprodutível sobre essas decisões, feito pela G4W para mostrar como avaliamos um projeto de instrumentação. O estimador (mínimos quadrados ponderados) e a alocação (procedimento guloso) foram escolhidos por serem simples, transparentes e fáceis de reproduzir com o código publicado. Eles não descrevem os algoritmos dos produtos da G4W nem pretendem ser o melhor método disponível. O objetivo é mostrar, em casos públicos, como as escolhas de projeto da instrumentação mudam o resultado.

2. Formulação

2.1 Estado e medições

Considere a rede trifásica com nn nós (cada fase de uma barra é um nó) e matriz de admitâncias nodais Y\mathbf{Y}. A matriz inclui linhas, transformadores, reguladores com o tap vigente, capacitores e o equivalente da fonte, mas não as cargas. O estado é o vetor de tensões complexas nodais x=[V1,…,Vn]⊤\mathbf{x} = [V_1, \dots, V_n]^\top.

O vetor Yx\mathbf{Y}\mathbf{x} dá a corrente injetada na rede, em cada nó, pelos elementos que não estão em Y\mathbf{Y}. Em um nó com carga, −(Yx)k-(\mathbf{Y}\mathbf{x})_k é a corrente absorvida pela carga. Em um nó sem carga e fora da fonte, essa injeção é nula.

Por que o estimador principal é linear. A relação I=YV\mathbf{I} = \mathbf{Y}\mathbf{V} é linear no estado complexo. A potência, S=V I‾S = V\,\overline{I}, não é. Na formulação convencional, em que as previsões entram como potências, o estimador é não linear e resolvido iterativamente. Aqui, todas as grandezas usadas no estimador principal são tensões ou correntes fasoriais (medidas, previstas ou nulas), de modo que o modelo de medição é linear:

z=H x+e,\mathbf{z} = \mathbf{H}\,\mathbf{x} + \mathbf{e},

em que e\mathbf{e} reúne os erros de medição e de previsão. Os pesos do estimador usam uma matriz R\mathbf{R} que aproxima a covariância desses erros; os pontos em que ela se afasta do erro simulado estão listados na Seção 5. A Tabela 1 resume as medidas.

Tipo Onde Grandeza (por fase) Desvio-padrão adotado
Medição da subestação barra da fonte, barra da subestação e trecho de saída fasores de tensão; corrente na saída (fasor ou, na variante SCADA, módulo da corrente e potências) 0,1 % (tensão); 0,5 % (corrente); 1 % (potências na variante SCADA)
Ponto de medição sincronizada início de um trecho de linha fasor de tensão na barra de origem; fasor de corrente que entra no trecho 0,2 % e 0,5 % no módulo, mais o erro de sincronismo
Pseudomedida (previsão) nós com carga corrente prevista da carga 50 % do módulo da corrente prevista de cada ramo de carga
Injeção nula nós sem carga (Yx)k=0(\mathbf{Y}\mathbf{x})_k = 0 variância mínima (peso muito elevado)

Pseudomedidas. A pseudomedida não é uma medição: é a previsão da carga, que a distribuidora conhece antes de medir qualquer ponto da rede. Para uma carga com potência prevista S~\tilde S ligada entre os nós aa e bb (o nó bb é a terra nas cargas em estrela e outra fase nas cargas em delta), a corrente prevista é

I~ab=(S~Va0−Vb0)‾,\tilde I_{ab} = \overline{\left(\frac{\tilde S}{V^{0}_a - V^{0}_b}\right)},

onde V0V^{0} são as tensões da rede sem cargas, com os taps do caso base. Nas cargas trifásicas, a potência prevista é dividida igualmente entre as fases. O uso de uma tensão fixa V0V^0 é o que mantém o modelo linear. O custo é uma aproximação: a corrente real depende da tensão real no ponto e do modelo da carga (potência, corrente ou impedância constante). Essa diferença soma-se ao erro de previsão e pode introduzir pequenos vieses, não representados em R\mathbf{R}.

Uma carga em delta injeta −I~ab-\tilde I_{ab} no nó aa e +I~ab+\tilde I_{ab} no nó bb, de modo que as pseudomedidas desses nós são correlacionadas. Por isso o bloco de pseudomedidas de R\mathbf{R} é cheio: Rpseudo=A Σ AH\mathbf{R}_{\text{pseudo}} = \mathbf{A}\,\boldsymbol{\Sigma}\,\mathbf{A}^{H}, com A\mathbf{A} a matriz que leva as correntes dos ramos de carga aos nós e Σ\boldsymbol{\Sigma} diagonal. Os nós sem carga entram no mesmo bloco com uma variância mínima, o que equivale a um peso muito elevado, e não a uma igualdade imposta exatamente.

Pontos de medição e sincronismo. Cada ponto fica no início de um trecho e mede, por fase, a tensão na barra de origem e a corrente que entra no trecho, I=Y1,:prim [V1; V2]\mathbf{I} = \mathbf{Y}^{\text{prim}}_{1,:}\,[\mathbf{V}_1;\,\mathbf{V}_2]. Os erros de módulo são gaussianos e relativos. O erro de ângulo vem do sincronismo: um erro de tempo δt\delta t produz, a 60 Hz,

δθ=2πf δt≈0,0216∘ por microssegundo.\delta\theta = 2\pi f\,\delta t \approx 0{,}0216^\circ \text{ por microssegundo}.

Em cada cenário, o erro de tempo de cada ponto é sorteado com desvio-padrão σt\sigma_t em relação à referência da subestação, de forma independente entre pontos, e o mesmo ângulo é aplicado à tensão e à corrente do ponto. Assim, σt\sigma_t não é o erro máximo entre pares (a diferença entre dois pontos tem desvio-padrão 2 σt\sqrt{2}\,\sigma_t), não inclui outros erros angulares da cadeia de medição (transformadores de instrumento, filtragem, estimação do fasor) e não tem relação com a latência de comunicação.

2.2 O que significa K = 0

Neste texto, KK é o número de pontos de medição adicionais na rede, além da subestação. Um ponto é o início de um trecho onde se medem todas as fases presentes; a quantidade de dispositivos físicos por ponto depende da tecnologia (com sensores instalados no condutor, um ponto trifásico pode exigir um dispositivo por fase). Os resultados contam pontos, não dispositivos.

K = 0 significa zero pontos adicionais, não ausência de informação. O estimador dispõe da medição da subestação, das previsões de carga e das injeções nulas. As equações de injeção de todos os nós (previstas ou nulas), junto com a tensão medida na fonte, já formam um sistema equivalente a um fluxo de potência linear: dada a tensão da fonte e a corrente em cada nó, as tensões ficam determinadas. Nos três alimentadores estudados, esse sistema tem posto completo e a solução é única. A rede é, portanto, observável graças às previsões, e não apenas por medição física.

A única redundância vem da subestação. Na prática, o estimador faz um rateio: obriga a corrente total de cada fase a respeitar a medição da saída e distribui a diferença entre o medido e o previsto entre as cargas, conforme a incerteza atribuída a cada uma. Uma variação comum a todas as cargas (a hora do dia) é bem corrigida. Uma variação individual não é, porque o estimador não tem como saber em qual ramo ela ocorreu. É em relação a esse caso que medimos o ganho dos pontos adicionais.

2.3 Estimador

A estimativa de mínimos quadrados ponderados é

x^=(HHR−1H)−1HHR−1 z,\hat{\mathbf{x}} = \left(\mathbf{H}^{H}\mathbf{R}^{-1}\mathbf{H}\right)^{-1}\mathbf{H}^{H}\mathbf{R}^{-1}\,\mathbf{z},

calculada por decomposição QR do sistema ponderado, com colunas escalonadas pela tensão de base de cada nó (as admitâncias de chaves e reguladores diferem em várias ordens de grandeza das de trechos longos, o que tornaria as equações normais mal condicionadas). A partir de x^\hat{\mathbf{x}} obtêm-se as correntes nos trechos, I^=YprimV^\hat{\mathbf{I}} = \mathbf{Y}^{\text{prim}}\hat{\mathbf{V}}, e a carga de cada barra, S^b=∑k∈bV^k (−(Yx^)k)‾\hat S_b = \sum_{k \in b} \hat V_k\,\overline{\big(-(\mathbf{Y}\hat{\mathbf{x}})_k\big)}, calculada depois da estimação.

Na variante SCADA (Seção 4.3), a saída do alimentador é medida como módulo da corrente por fase e potências ativa e reativa trifásicas. Essas medidas são não lineares no estado, e a estimativa é obtida por Gauss-Newton em coordenadas retangulares, partindo da solução linear sem a medição da saída.

O estimador não é o fluxo de potência. A "verdade" de cada cenário vem do fluxo de potência do OpenDSS, que resolve as equações não lineares da rede com os modelos de carga originais. O estimador apenas combina medições e previsões com Y\mathbf{Y} fixa.

Os desvios das correntes medidas são proporcionais ao módulo da corrente. Para dimensioná-los, usamos as correntes de um fluxo de potência com as cargas previstas, informação disponível antes de qualquer medição.

Conferência. Com medição exata em todos os trechos, o estimador recupera a solução do OpenDSS com erro de tensão inferior a 10−4 %10^{-4}\,\% nos três alimentadores, também na variante SCADA, e a matriz Y\mathbf{Y} reproduz as injeções do fluxo de potência com resíduo inferior a 10−510^{-5} A nos nós sem carga.

2.4 Métricas

Para cada um dos NN cenários de avaliação são calculados três erros, e os resultados são médias sobre os cenários.

Tensão — o maior erro de magnitude entre todos os nós (exceto os da fonte), em % da tensão de base do nó:

εV=1N∑s=1N max⁡k ∣ ∣V^k,s∣−∣Vk,s∣ ∣Vkbase×100 %.\varepsilon_V = \frac{1}{N}\sum_{s=1}^{N}\ \max_{k}\ \frac{\big|\,|\hat V_{k,s}| - |V_{k,s}|\,\big|}{V^{\text{base}}_k}\times 100\,\%.

É uma média de máximos por cenário, não um limite de pior caso; quando útil, informamos também o percentil 90.

Corrente — em cada trecho, o maior erro de magnitude entre as fases, somado sobre os trechos e dividido pela soma da maior corrente verdadeira de cada trecho:

εI=1N∑s∑ℓmax⁡p∣ ∣I^ℓp,s∣−∣Iℓp,s∣ ∣∑ℓmax⁡p∣Iℓp,s∣×100 %.\varepsilon_I = \frac{1}{N}\sum_{s}\frac{\sum_\ell \max_{p}\big|\,|\hat I_{\ell p,s}| - |I_{\ell p,s}|\,\big|}{\sum_\ell \max_p |I_{\ell p,s}|}\times 100\,\%.

Carga — soma dos erros de potência ativa por barra com carga, dividida pela carga total:

εP=1N∑s∑b∣P^b,s−Pb,s∣∑b∣Pb,s∣×100 %.\varepsilon_P = \frac{1}{N}\sum_{s}\frac{\sum_b |\hat P_{b,s} - P_{b,s}|}{\sum_b |P_{b,s}|}\times 100\,\%.

No IEEE 123, a barra 610 (secundário de um transformador em delta, sem carga e sem ligação à terra) fica fora da métrica de tensão: ali a tensão fase-neutro não tem significado físico.

2.5 Alocação

Dado um orçamento de KK pontos, buscamos o conjunto S\mathcal{S} de trechos que minimiza

J(S)=εV(S)εV(∅)+εI(S)εI(∅)+εP(S)εP(∅),J(\mathcal{S}) = \frac{\varepsilon_V(\mathcal{S})}{\varepsilon_V(\varnothing)} + \frac{\varepsilon_I(\mathcal{S})}{\varepsilon_I(\varnothing)} + \frac{\varepsilon_P(\mathcal{S})}{\varepsilon_P(\varnothing)},

isto é, os três erros, cada um relativo ao caso K=0K = 0, com o mesmo peso. O problema é combinatório (no IEEE 123, para K=4K = 4 entre 123 trechos, há cerca de 9,1 milhões de combinações). Usamos um procedimento guloso, comum em alocação de sensores [7]: a cada passo, adiciona-se o trecho que mais reduz JJ, estimado nos cenários de escolha, sem rever as escolhas anteriores. O conjunto para cada KK é o início dessa sequência.

O método guloso não garante o ótimo. Para verificá-lo, fizemos a busca exaustiva onde ela é viável. No IEEE 13, o guloso encontrou exatamente o melhor conjunto para K=1K = 1 a 4. No IEEE 34, encontrou o melhor para K=1K = 1 e 2; para K=3K = 3 e 4, o melhor conjunto é outro, mas com objetivo menos de 1 % menor, diferença da ordem da variação de Monte Carlo. No IEEE 123, a verificação só foi viável para K=1K = 1, em que os dois coincidem.

3. Estudo de caso

Foram usados três alimentadores de teste do IEEE [8], nos arquivos públicos do OpenDSS [9], [10]: trifásicos e desequilibrados, com ramais mono e bifásicos, cargas em estrela e em delta e reguladores de tensão (Tabela 2).

Alimentador Tensão Carga total Barras com carga Nós Reguladores (fases) Trechos candidatos
IEEE 13 4,16 kV 3,47 MW 9 41 3 11
IEEE 34 24,9 kV 1,77 MW 28 95 6 31
IEEE 123 4,16 kV 3,49 MW 85 278 7 123

Cenários. A verdade de cada cenário é o fluxo de potência do OpenDSS, com os modelos de carga originais, após perturbar as cargas em torno da previsão por um fator comum a todas (desvio-padrão de 15 %, a hora do dia) e um fator individual por carga (30 %), ambos truncados. Os taps dos reguladores são os do caso base, mantidos fixos. Os pontos são escolhidos com 120 cenários e avaliados em outros 400, independentes.

Estratégias comparadas, todas avaliadas nos mesmos 400 cenários:

  1. Otimizada (gulosa), descrita na Seção 2.5.
  2. Uniforme no tronco, regra simples de referência: os KK pontos são espaçados igualmente, em número de trechos, ao longo do caminho entre a fonte e a barra mais distante. No IEEE 13 o tronco tem só quatro trechos, então a regra usa no máximo quatro pontos distintos.
  3. Aleatória: 30 sorteios de trechos para cada KK.

As Figuras 1 a 3 mostram os alimentadores, as cargas (área proporcional à potência e cor pelo número de fases) e os quatro primeiros pontos da alocação otimizada.

Figura 1 — IEEE 13 barras: cargas, subestação, regulador e os quatro pontos de medição da alocação otimizada.
Figura 1 — IEEE 13 barras: cargas, subestação, regulador e os quatro pontos de medição da alocação otimizada.
Figura 2 — IEEE 34 barras: cargas, subestação, reguladores e os quatro pontos de medição da alocação otimizada.
Figura 2 — IEEE 34 barras: cargas, subestação, reguladores e os quatro pontos de medição da alocação otimizada.
Figura 3 — IEEE 123 barras: cargas, subestação, reguladores e os quatro pontos de medição da alocação otimizada. Traçado esquemático: trechos sem coordenadas alinhadas são desenhados em ângulo reto.
Figura 3 — IEEE 123 barras: cargas, subestação, reguladores e os quatro pontos de medição da alocação otimizada. Traçado esquemático: trechos sem coordenadas alinhadas são desenhados em ângulo reto.

4. Resultados

Nas Seções 4.1, 4.2, 4.4 e 4.5, a saída do alimentador é medida como fasor de corrente. Essa premissa favorece o caso sem pontos; a Seção 4.3 mostra o que muda com as grandezas típicas de SCADA.

4.1 Erro em função do número de pontos

A Figura 4 mostra os três erros para KK de 0 a 8. A Tabela 3 resume o erro de tensão.

Figura 4 — Erros de tensão, corrente nos trechos e carga por barra em função do número de pontos de medição, para as três estratégias. Faixa cinza: percentis 10 a 90 dos 30 sorteios aleatórios. Todas as estratégias avaliadas nos mesmos 400 cenários.
Figura 4 — Erros de tensão, corrente nos trechos e carga por barra em função do número de pontos de medição, para as três estratégias. Faixa cinza: percentis 10 a 90 dos 30 sorteios aleatórios. Todas as estratégias avaliadas nos mesmos 400 cenários.
Alimentador Estratégia K = 0 K = 1 K = 2 K = 4 K = 8
IEEE 13 Otimizada 1,05 % 0,73 % 0,27 % 0,11 % 0,07 %
Uniforme no tronco 1,05 % 0,74 % 0,61 % 0,57 % 0,57 %*
Aleatória (média) 1,05 % 0,75 % 0,61 % 0,42 % 0,14 %
IEEE 34 Otimizada 3,09 % 0,34 % 0,29 % 0,19 % 0,14 %
Uniforme no tronco 3,09 % 2,59 % 0,52 % 2,18 % 0,22 %
Aleatória (média) 3,09 % 2,70 % 2,33 % 1,77 % 1,26 %
IEEE 123 Otimizada 0,64 % 0,38 % 0,35 % 0,26 % 0,19 %
Uniforme no tronco 0,64 % 0,41 % 0,34 % 0,33 % 0,29 %
Aleatória (média) 0,64 % 0,56 % 0,46 % 0,42 % 0,33 %

* Com quatro pontos distintos, o máximo que o tronco do IEEE 13 comporta. Os valores são εV\varepsilon_V, a média sobre os cenários do maior erro de tensão em cada cenário. Na alocação otimizada com quatro pontos, o percentil 90 desse erro é 0,16 %, 0,30 % e 0,36 %, contra 1,69 %, 5,92 % e 0,98 % sem pontos.

O primeiro ponto bem posicionado pode valer muito. No IEEE 34, o erro sem pontos se concentra no ramal de 4,16 kV alimentado pelo transformador entre as barras 832 e 888, que atende uma carga de 450 kW na barra 890 (erro médio de 2,7 % nessa barra, contra menos de 0,5 % no restante da rede). Um único ponto no início desse ramal (trecho 888–890) reduz o erro para 0,34 %.

A escolha dos pontos importa tanto quanto a quantidade. Para levar o erro de tensão a 0,3 % ou menos:

  • a alocação otimizada precisa de dois pontos no IEEE 13, dois no IEEE 34 e quatro no IEEE 123;
  • a regra uniforme precisa de cinco no IEEE 34 e cinco no IEEE 123, e nunca chega lá no IEEE 13, cujo tronco deixa de fora os ramais onde o erro se concentra;
  • a média das alocações aleatórias não chega lá com oito pontos no IEEE 34 e no IEEE 123; no IEEE 13, chega com sete.

A regra uniforme também é instável: no IEEE 34, passar de três para quatro pontos desloca as posições ao longo do tronco, tira o ponto do ramal crítico e o erro sobe de 0,31 % para 2,18 %.

O número de barras não determina o erro de tensão. O IEEE 123, o maior dos três, tem o menor erro sem pontos (0,64 %) e a menor redução relativa com quatro pontos. O erro depende de impedâncias, nível de tensão, carregamento, posição das cargas e ação dos reguladores; este estudo não isola a contribuição de cada fator.

Corrente e carga respondem de forma diferente da tensão. Com quatro pontos, o erro das correntes nos trechos cai de 10,6 % para 1,2 % no IEEE 13, de 6,1 % para 1,1 % no IEEE 34 e de 8,8 % para 4,9 % no IEEE 123 (reduções de 89 %, 82 % e 44 %, contra 90 %, 94 % e 59 % na tensão). O erro da carga por barra cai bem menos onde há muitas cargas:

Alimentador Barras com carga K = 0 K = 4 K = 8
IEEE 13 9 16,8 % 3,6 % 0,6 %
IEEE 34 28 20,0 % 7,2 % 3,9 %
IEEE 123 85 22,9 % 19,8 % 16,6 %

Poucos pontos bem posicionados melhoram muito as tensões e os fluxos, mas, quando há muitas cargas a jusante de cada ponto, não bastam para separar as cargas individuais. Com três alimentadores, essa relação é uma indicação, não uma regra.

A Figura 5 ilustra o efeito sobre a carga no IEEE 34. Sem pontos, as cargas estimadas variam pouco de um cenário para outro (as faixas horizontais): o estimador corrige o total pela corrente medida na subestação, mas não sabe qual carga mudou. Com quatro pontos, as estimativas se alinham à carga verdadeira.

Figura 5 — IEEE 34: potência ativa estimada contra a verdadeira, por barra com carga, em 100 cenários de avaliação.
Figura 5 — IEEE 34: potência ativa estimada contra a verdadeira, por barra com carga, em 100 cenários de avaliação.

4.2 Onde instalar

Na maioria, os pontos escolhidos ficam no início de ramais ou derivações que alimentam cargas relevantes, e não no fim dos ramais nem em posições igualmente espaçadas.

  • IEEE 13: trechos 692–675 (que alimenta a maior carga trifásica), 632–633 (que alimenta o transformador de 480 V), 671–684 e 632–645, nos ramais laterais.
  • IEEE 34: o ramal de 4,16 kV (888–890) e as derivações 834–842, 832–858 e 844–846.
  • IEEE 123: o trecho de tronco 53–54, a derivação 44–47, a chave entre 97 e 197 e o trecho 63–64. Aqui o padrão é menos nítido.

Uma leitura intuitiva, não testada isoladamente: a corrente medida no início de um ramal separa a incerteza da carga entre o que está antes e depois do ponto, e as injeções nulas levam essa informação ao longo do ramal. Um ponto no fim de um ramal mede apenas a última carga; um ponto no meio do tronco mede a soma de muitas cargas. De fato, instalar os pontos nos fins de ramal, do mais distante para o mais próximo, foi bem pior: com quatro pontos, 0,67 % no IEEE 13, 2,70 % no IEEE 34 e 0,41 % no IEEE 123.

4.3 A medição da subestação: fasor ou SCADA

Os resultados acima tratam a saída do alimentador como um fasor de corrente, sincronizado com a referência da subestação. Muitas subestações, porém, entregam ao centro de operação o módulo da corrente e as potências. A Figura 6 repete a alocação otimizada com a saída medida dessa forma.

Figura 6 — Erro de tensão com a saída do alimentador medida como fasor de corrente e como no SCADA (módulo da corrente por fase e potências trifásicas), na mesma alocação.
Figura 6 — Erro de tensão com a saída do alimentador medida como fasor de corrente e como no SCADA (módulo da corrente por fase e potências trifásicas), na mesma alocação.
Erro de tensão Fasor, K = 0 SCADA, K = 0 Fasor, K = 4 SCADA, K = 4 Redução com 4 pontos (SCADA)
IEEE 13 1,05 % 1,63 % 0,11 % 0,14 % 91 %
IEEE 34 3,09 % 3,39 % 0,19 % 0,20 % 94 %
IEEE 123 0,64 % 0,80 % 0,26 % 0,28 % 65 %

Com a medição de SCADA, o caso sem pontos piora (o módulo da corrente e as potências trifásicas totais não determinam o ângulo da corrente em cada fase), mas com dois ou mais pontos a diferença praticamente desaparece. Os erros de corrente e de carga quase não mudam. Para atingir 0,3 % de erro de tensão, a alocação otimizada passa a precisar de três pontos no IEEE 13 e no IEEE 34 e continua com quatro no IEEE 123. Ou seja, as reduções da Seção 4.1 são uma estimativa conservadora do ganho em uma subestação com SCADA convencional.

4.4 O que o ponto deve medir

A Figura 7 mantém os quatro pontos da alocação otimizada e varia o erro da medição de tensão do ponto, comparando com um ponto que mede só corrente. A referência de tensão da subestação, com erro de 0,1 %, continua presente.

Figura 7 — Erro com quatro pontos em função do erro da medição de tensão do ponto, em relação ao caso em que o ponto mede só corrente.
Figura 7 — Erro com quatro pontos em função do erro da medição de tensão do ponto, em relação ao caso em que o ponto mede só corrente.

Neste estudo, a corrente responde pela maior parte do ganho. Medir também a tensão reduz o erro de tensão estimada em 21 % a 32 % com erro de medição de 0,1 %, e em 10 % a 20 % com 0,2 %. Com 0,5 %, o ganho já fica abaixo de 7 %, e com 1 % ou mais praticamente desaparece. Na estimação das cargas, o efeito é pequeno (até 8 % no IEEE 13 com 0,1 %).

Esses números valem nas condições do estudo: referência de 0,1 % na subestação, alocação fixa e modelo da rede conhecido. A literatura de estimação com medição fasorial também mostra que o valor de cada medida depende da quantidade e da exatidão do conjunto [12]; a faixa encontrada aqui não é um limiar geral. Também não se trata de dispensar a medição de tensão: conformidade de tensão, qualidade de energia, localização de faltas e identificação de topologia podem justificá-la por motivos que esta nota não avalia.

4.5 O papel do sincronismo

A Figura 8 mantém os quatro pontos e varia σt\sigma_t, mostrando a fração do ganho de tensão (em relação a K=0K = 0) que se mantém.

Figura 8 — Fração do ganho dos quatro pontos mantida em função do desvio-padrão do erro de sincronismo de cada ponto.
Figura 8 — Fração do ganho dos quatro pontos mantida em função do desvio-padrão do erro de sincronismo de cada ponto.
σt\sigma_t IEEE 13 IEEE 34 IEEE 123
até 10 µs ≥ 98 % ≥ 98 % ≥ 98 %
100 µs 95 % 94 % 76 %
1 ms 44 % 32 % 15 %

O IEEE 123 foi o mais sensível; o estudo não isolou a causa. O estimador conhece σt\sigma_t (a variância angular entra em R\mathbf{R}), mas R\mathbf{R} não inclui a correlação entre os erros de tensão e de corrente do mesmo ponto. Para referência, uma rede de micro-sincrofasores instalada em campo relatou alinhamento temporal melhor que 1 µs entre pares de dispositivos e exatidão angular de 0,01° [11], dentro da faixa favorável deste estudo. Aquela métrica (entre pares) não é idêntica à usada aqui, e aquele resultado não estabelece custo nem realização de um sensor instalado no condutor.

5. Discussão e limitações

Nos três alimentadores, a qualidade da estimação foi, em boa parte, uma questão de projeto da instrumentação. O número de pontos necessário dependeu da topologia, da grandeza que se quer estimar e da qualidade de medição e de sincronismo, e a escolha dos pontos pesou tanto quanto a quantidade. Para quem planeja um programa de monitoramento, os resultados sugerem quatro orientações, válidas nestes casos e a confirmar em cada rede:

  • Escolher os pontos com o modelo da rede, e não por regra de espaçamento: o início dos ramais que alimentam cargas relevantes foi o padrão mais frequente.
  • Poucos pontos já mudam a qualidade das tensões e das correntes: dois a quatro pontos levaram o erro de tensão a 0,3 % ou menos.
  • Sincronismo da ordem de microssegundos preserva praticamente todo o ganho; erros da ordem de milissegundos o destroem.
  • Para conhecer a carga de cada barra, com muitas cargas por ramal, os pontos de rede precisam ser combinados com outras fontes, como a medição inteligente dos clientes.

O estudo tem limitações:

  • Taps e modelo conhecidos. A matriz Y\mathbf{Y} usa os taps vigentes e parâmetros exatos. Com tap desconhecido, ele deveria entrar como variável de estado; erros de parâmetros não foram tratados.
  • Modelo das previsões. O bloco de pseudomedidas de R\mathbf{R} trata cada ramo de carga como independente, não representa o fator comum nem a variação conjunta das fases de uma carga e usa variância de 50 %, maior que a dispersão usada para gerar os cenários. A conversão de potência em corrente com V0V^0 é outra aproximação. Cargas reais têm correlações, assimetrias e geração distribuída; essas diferenças podem alterar os resultados, em direção que este estudo não permite afirmar.
  • Covariâncias aproximadas. As injeções nulas entram com peso elevado, não como igualdade exata (reduzir esse piso não alterou os resultados; aumentá-lo cem vezes piorou o caso de quatro pontos do IEEE 13 de 0,11 % para 0,14 %). A correlação dos erros de tensão e corrente de um mesmo ponto, que compartilham o relógio, não está em R\mathbf{R}.
  • Retrato instantâneo e medições sem erros grosseiros. Não foram tratados séries temporais, perda de comunicação nem detecção de medidas espúrias.
  • Alocação gulosa. A verificação exaustiva foi possível apenas em parte dos casos, e o peso igual entre os três erros do objetivo é uma escolha. Aplicações como localização de faltas levariam a alocações diferentes.
  • Custo e realização física. Custo, instalação, alimentação e comunicação dos sensores não foram avaliados.
  • Generalização. Três alimentadores de teste não permitem extrapolar razões entre pontos e cargas, nem limiares de exatidão ou de sincronismo, para redes reais.

6. Conclusão

Em três alimentadores de teste trifásicos e desequilibrados, quatro pontos de medição sincronizada, acrescentados à medição da subestação e escolhidos por um procedimento guloso, reduziram a média do maior erro de tensão por cenário em 90 % (IEEE 13), 94 % (IEEE 34) e 59 % (IEEE 123), e o erro das correntes nos trechos em 89 %, 82 % e 44 %, com avaliação em cenários independentes. Com uma subestação que fornece apenas grandezas de SCADA, a redução de tensão sobe para 91 %, 94 % e 65 %. A alocação otimizada, verificada por busca exaustiva nos casos em que ela foi viável, atingiu 0,3 % de erro de tensão com dois a quatro pontos; uma regra de espaçamento uniforme precisou de cinco ou não chegou lá. O ganho depende de sincronismo da ordem de microssegundos, e a carga individual de cada barra melhora pouco quando há muitas cargas por ponto. A mensagem prática é que o projeto da instrumentação, e não apenas a quantidade de sensores, determina boa parte do retorno de um programa de monitoramento da rede.

Reprodutibilidade

Código: se3f.py (modelo da rede, estimadores linear e SCADA, métricas), study.py (alocação, comparações, busca exaustiva, variante SCADA, precisão de tensão e sincronismo) e figs_paper.py. Resultados: IEEE 13, IEEE 34, IEEE 123. Dependências: Python 3.12 ou superior, OpenDSSDirect.py, NumPy e Matplotlib. Os alimentadores são os arquivos IEEETestCases do repositório público de casos de teste do OpenDSS [10]. Semente principal: 2026; o código fixa sementes auxiliares para o ruído de medição e os sorteios aleatórios.

Referências

  1. A. Abur e A. Gómez Expósito, Power System State Estimation: Theory and Implementation. New York: Marcel Dekker, 2004.
  2. M. E. Baran e A. W. Kelley, "State estimation for real-time monitoring of distribution systems," IEEE Transactions on Power Systems, vol. 9, n. 3, 1994.
  3. A. Primadianto e C.-N. Lu, "A review on distribution system state estimation," IEEE Transactions on Power Systems, 2017.
  4. A. von Meier, E. Stewart, A. McEachern, M. Andersen e L. Mehrmanesh, "Precision micro-synchrophasors for distribution systems: A summary of applications," IEEE Transactions on Smart Grid, vol. 8, n. 6, 2017. doi: 10.1109/TSG.2017.2720543.
  5. IEEE Std C37.118.1-2011, IEEE Standard for Synchrophasor Measurements for Power Systems, 2011.
  6. T. L. Baldwin, L. Mili, M. B. Boisen e R. Adapa, "Power system observability with minimal phasor measurement placement," IEEE Transactions on Power Systems, vol. 8, n. 2, 1993.
  7. A. Krause, A. Singh e C. Guestrin, "Near-optimal sensor placements in Gaussian processes: Theory, efficient algorithms and empirical studies," Journal of Machine Learning Research, vol. 9, 2008.
  8. W. H. Kersting, "Radial distribution test feeders," em Proc. IEEE PES Winter Meeting, 2001.
  9. EPRI, OpenDSS — Open Distribution System Simulator. Disponível em: https://sourceforge.net/projects/electricdss/
  10. DSS-Extensions, OpenDSSDirect.py e electricdss-tst (casos de teste do OpenDSS). Disponível em: https://github.com/dss-extensions
  11. A. L. Liao, E. M. Stewart e E. C. Kara, "Micro-Synchrophasor Data for Diagnosis of Transmission and Distribution Level Events," Lawrence Berkeley National Laboratory, LBNL-1005925, 2016. Disponível em: https://eta-publications.lbl.gov/sites/default/files/lbnl-1005925.pdf
  12. C. Muscas, M. Pau, P. A. Pegoraro e S. Sulis, "Uncertainty of Voltage Profile in PMU-Based Distribution System State Estimation," IEEE Transactions on Instrumentation and Measurement, vol. 65, n. 5, pp. 988–998, 2016. doi: 10.1109/TIM.2015.2494619.

Como citar

G4W. "Quantos sensores, e onde? Alocação de medição sincronizada para estimação de estados trifásica em alimentadores de distribuição". Nota técnica G4W-NT-2026-01, 2026. Disponível em: https://g4w.com.br/pt/insights/alocacao-sensores-observabilidade/